Como escrever um livro? Bruna Santiago dá dicas para colocar as ideias no papel

Entre a pesquisa acadêmica, a literatura e a criação de conteúdo, Bruna Santiago reúne dicas para quem quer começar a escrever.
3 min de leitura
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No clima do Dia Nacional do Escritor, celebrado em 25 de julho, o Blog da Privacy conversou com a creator, historiadora e escritora Bruna Santiago sobre sua trajetória como autora e o caminho para transformar ideias em livros.

Autora de Mulheres Negras e Representatividade: Raça e Gênero na Literatura de Cordel, ela compartilhou dicas para quem deseja tirar um projeto do papel, organizar a escrita e dar os primeiros passos rumo à publicação.

Quais livros te ajudaram a ser uma escritora ainda melhor? 

Duas autoras foram fundamentais para a minha formação como escritora: Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Elas representam, de certa forma, os dois caminhos da escrita que mais atravessam a minha produção que são o conto e o romance histórico. Ler Olhos d’água, de Conceição Evaristo, e Solitária, de Eliana Alves Cruz, mudou a forma como eu enxergava a literatura e as possibilidades da escrita. Venho de uma realidade periférica, marcada pelo trabalho desde muito cedo, e essas autoras me ajudaram a perceber que nossas vivências carregam histórias, conflitos e afetos que merecem ser narrados. Elas me mostraram que escrever também é uma forma de produzir memória, de disputar representações e de transformar aquilo que muitas vezes foi invisibilizado em literatura. 

Qual conselho você daria para quem quer escrever seu primeiro livro e não sabe por onde começar? 

Comece por qualquer lugar. O primeiro livro não nasce no momento em que sentamos diante de um computador e decidimos que ele vai existir. Ele nasce antes nas ideias que ficam rondando a cabeça, nas pequenas anotações, nos textos-rascunhos que escrevemos sem muita pretensão e que, por algum motivo, escolhemos não apagar. Muitas vezes, é nesses fragmentos que descobrimos que já existia ali o coração de uma história. Acredito que a imaginação é o primeiro movimento da escrita. Antes de colocar uma palavra no papel, precisamos permitir que uma história exista dentro de nós. O medo, a insegurança e a sensação de não estar pronto fazem parte do processo, mas, em algum momento, a imaginação encontra um caminho e atravessa a barreira do pensamento para se transformar em texto. Escrever um primeiro livro exige que a gente acredite que também pode ocupar esse lugar de escritor. Então, se eu pudesse dar um conselho, seria o que eu já ouvi antes: confie que a sua história precisa ser contada. Ninguém mais vai escrever ela da mesma forma que você. 

Qual é a melhor dica para fazer com que a história seja uma leitura envolvente? 

Eu sempre acho que essa pergunta é circunstancial. O que torna uma leitura envolvente no século XIX não necessariamente produz o mesmo efeito no século XXI. As formas de ler e de escrever estão atravessadas pelos contextos sociais, políticos e históricos de cada período, e isso também transforma aquilo que buscamos em uma narrativa. Pensando a partir do presente, acredito que uma história se torna envolvente quando consegue criar algum tipo de conexão com o leitor. Essa conexão pode vir da identificação, da experiência compartilhada, dos conflitos humanos ou até mesmo do contato com realidades muito diferentes das nossas. Uma boa narrativa nos aproxima de algo que reconhecemos, mas também pode nos apresentar mundos que ainda não conhecemos. Talvez por isso a literatura brasileira contemporânea tenha conquistado tantos leitores ao trazer histórias construídas a partir de diferentes territórios, experiências e perspectivas sobre o Brasil. Eu, particularmente, gosto de ler histórias em que consigo sentir algo da vida que também me pertence, porque acredito que a literatura tem essa capacidade de revelar o mundo e, ao mesmo tempo, revelar um pouco de nós mesmos. 

Existe uma rotina que te ajuda a escrever mesmo conciliando outras atividades? 

Eu nunca tive exatamente uma rotina de escrita, porque, para mim, a escrita acontece o tempo todo. Eu não tinha um “teto todo meu”, nem um notebook e, principalmente, não tinha tempo disponível. Então aprendi a criar no meio da vida, que foi enquanto entregava cardápios no expediente do trabalho, enquanto cuidava da minha filha, durante as aulas da faculdade ou mesmo andando pela rua. Muitas vezes escrevo cenas a partir da observação, uma conversa, uma pessoa que passa, uma lembrança, uma viagem ou um pensamento que surge em algum momento do dia. A escrita começa antes do papel. Meu último texto literário, por exemplo, surgiu a partir da preparação de uma festa de aniversário. Mas aquela história não era apenas sobre uma comemoração; era sobre uma mãe cansada que conseguiu ver a felicidade da filha, sobre sonhos realizados e sobre afetos construídos no cotidiano. Então, no meu caso, a escrita nunca esteve separada das outras atividades da vida. Ela nasceu justamente no meio delas. É uma espécie de bagunça, mas uma bagunça funcional. (risos) 

Escrever um livro foi apenas um dos capítulos da trajetória de Bruna Santiago. Na Privacy, ela encontrou uma forma de conquistar mais autonomia para investir na carreira acadêmica, aprofundar suas pesquisas e dedicar mais tempo à produção intelectual. Leia a entrevista completa e conheça mais sobre a trajetória.

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