Dominante: aquele que domina, que governa. O adjetivo poderia servir de sinônimo para Talita Scarpelli, e não só por causa do nome que ela usa nas redes. Por 12 anos, ela comandou equipes como gerente de lojas de shopping, a maior parte deles no mercado de luxo da moda.
Ao mesmo tempo, mantinha outra persona: a Mistress TT.S, que falava abertamente sobre fetiche e chegou a reunir 88 mil seguidores no Instagram, mesmo sem nunca mostrar o rosto.
A máscara não servia para esconder nada da família nem do casamento. Era um álibi para o trabalho.
“Eu só pensava que precisava criar uma personagem pra que, se em qualquer momento as empresas em que eu trabalhei questionassem o meu profissionalismo, eu pudesse falar: ‘Aqui é uma personagem, aqui não sou eu’”, conta.
Ela sabia como a exposição de uma mulher em cargo de liderança costuma ser julgada. “Qualquer foto minha de biquíni já invalida meu trabalho, a minha capacidade, simplesmente por ser uma mulher que se expõe. Um homem posta a foto dele na praia de sunga e tudo bem. Agora imagina uma fetichista, que usa látex, couro, que tem essa coisa da dominância”, afirma.
Filha de costureira, a creator passou a infância desenhando roupas e costurando ao lado da mãe. Formou-se estilista e levou para o varejo o olhar de quem monta produções. Mais tarde, levou esse mesmo olhar para as fotos da Mistress TT.S.
Mas o perfil nunca se resumiu à estética. Durante a pandemia, toda quarta-feira, às dez da noite, ela abria uma garrafa de vinho e fazia o Boteco da Mistress, uma live com uma amiga sexóloga, um urologista e outros convidados para falar abertamente sobre fetiche, relacionamento e saúde. Do outro lado da tela, mulheres e casais escreviam: “Cara, eu me reconheço nessa fala.”
Foi nesse período, com salário reduzido e jornadas cada vez mais longas, que Talita começou a considerar a ideia de apostar no que até então era um projeto paralelo. O marido, parceiro desde o início, foi quem a incentivou. Ela criou o perfil na Privacy ainda mascarada, mas o passo seguinte veio logo depois, com uma frase que ouviu dele: “Tira a máscara, porque cê tá sufocando. Não é mais quem é você. Você não precisa mais se esconder.”
Ela tirou.
“E foi a melhor coisa que eu fiz! […] Eu tinha que sustentar uma coisa que eu já não precisava mais sustentar. Não preciso mais me esconder. E aí meu plano B virou meu plano A”, diz.
Talita conta ainda que mostrar o rosto mudou a forma como as pessoas se relacionavam com ela. “Uma máscara pode ser qualquer pessoa. A partir do momento em que tem um rosto ali, uma boca, uma fala, você começa a pensar: ‘Me identifico ou não me identifico’.”
Para ela, isso também ajuda a desmarginalizar o fetiche: mais gente pode se reconhecer ali, sem olhar para esse universo como algo à margem.
Seis anos depois, Talita ainda trabalha com moda, mas a principal renda vem da produção de conteúdo. A mudança exigiu o que ela chama de “chá de revelação”: entender que aquilo não era mais a foto de fim de semana, feita quando batia a inspiração. “É encarar como um trabalho”, resume.
Ela reserva dois ou três dias por semana para produzir, conversa com assinantes e seguidores para entender o que esperam ver e publica vídeo novo todos os dias. Do universo do fetiche, trouxe a prática de deixar os limites sempre combinados. Do varejo, trouxe o repertório de narrativa e de styling.
Durante muito tempo, sua atenção esteve voltada para plataformas estrangeiras, já que o fetiche é mais difundido na Europa. Há três ou quatro meses, decidiu priorizar a Privacy e, no último mês, faturou R$ 12 mil.
“O brasileiro também consome o não normativo. O brasileiro também gosta do diferente”, afirma.
Com o tempo, quase todos os seus hobbies viraram trabalho: a moda, o desenho, o próprio fetiche. Sobrou o futebol. Quando quer descansar, a são-paulina vai para o estádio, onde é recorrentemente reconhecida.
O próximo plano tem endereço: passar um ano morando na Europa, ideia que ela e o marido alimentam há tempos e que entrou de vez nas metas de 2027.
Pela primeira vez, Talita diz não ter nada que a prenda a um CEP. Quando um seguidor perguntou onde ela mora, a resposta veio rápida: “Eu sou uma estrela que vive no mundo, amor. Posso viver em qualquer lugar.”


